terça-feira, 6 de novembro de 2007

Noites Recomenda - Luna Clara & Apolo Onze

Luna Clara é uma doce menina que mora na pequena cidade de Desatino do Norte. Ela vive a aguardar, junto com sua mãe, pelo dia que seu pai voltará, trazendo uma tempestade em sua cabeça. Apolo Onze, filho de Apolo Dez, mora em Desatino do Sul. Desde que nasceu, sua família comemora seu aniversário ininterruptamente, há mais de 13 anos. Apolo tem desejo de desejos, por isso, nunca soube realmente o que desejar em sua vida. Assim foi até o dia que um estranho homem montado num cavalo, com uma tempestade em sua cabeça, invade sua festa de aniversário.

Luna Clara & Apolo Onze é um livro brasileiro escrito há alguns anos (cinco, para ser exato) pela roteirista da série A Grande Família, Adriana Falcão. A mesma mulher que, anteriormente, escrevera o livro A Máquina, que até ganhou uma peça de teatro e um filme. Voltando ao assunto, o livro em questão é considerado juvenil, mas pode ser lido tranquilamente por pessoas de qualquer idade. Trata-se de uma história bela e sensível sobre o destino e o amor.

Tomei conhecimento desse livro em 2002, na época do lançamento, quando lendo a seção 'Veja Recomenda' da revista Veja, encontrei uma resenha bastante positiva sobre o mesmo. Na época, eu costumava ler bastante essa seção, mas acabei largando mão após ficar cada vez mais evidente que o jabá prevalecia naquelas páginas. Ainda assim, das muitas recomendações que tomei daquele pedaço da revista, Luna Clara & Apolo Onze foi uma das mais felizes. Eu tinha 13 anos, lia bastante Harry Potter (ainda leio, mas não sou tão fanboy quanto anteriormente fui) e queria conhecer coisas novas, em matéria de livros. Comprei-o durante uma das muitas feiras panamazônicas que rolaram em Belém.

Numa análise mais profunda do enredo, encontramos esses dois personagens, Luna Clara e Apolo Onze, com, aparentemente, nenhum aspecto em comum. À medida que descobrimos novos fatos sobre os personagens da história e seus respectivos destinos, vemos o quanto esses dois protagonistas são ligados de maneira muito forte, ainda que não se dêem conta disso.

Vejamos, por exemplo, a mãe de Luna Clara, Aventura, uma das molas-mestras da história. Quando Luna Clara não chegava nem a ser um projeto na mente da mesma, a garota seguia viagem com seu pai, seu Erudito, e suas irmãs, Divina (uma piadista sem igual) e Odisséia (uma emo sem igual). Ao passarem por Desatino do Sul, Aventura encontra Doravante, futuro pai de Luna (extremamente sortudo e cheio de pressa), pela primeira vez, durante uma certa festa de aniversário (se não sabe do que estou falando, provavelmente você tem problemas de memória ¬¬). Após se casarem durante a mesma festa (tinha um padre no local, que veio batizar o aniversariante) e passarem a lua de mel na cidade, eles acabam se separando (fisicamente) por causa da insistência do pai de Aventura (um cabeça-dura sem igual) em testar o amor do genro, o qual mandara Doravante seguir para Desatino do Norte (que é alguns quilômetros distante do Sul) antes de Aventura, argumentando que a viagem seria muito perigosa e que só sendo um marido decente, ele aceitaria ir em frente.

Aventura fica bastante desolada diante do descrédito do pai em seu amor, mas o marido argumenta que adorou a chance de provar seu amor para o sogro e rapidamente parte para Desatino do Norte, montado em seu cavalo, Equinócio. Ao cavalgar pela única estrada que liga Desatino do Sul a Desatino do Norte, o viajante é obrigado a atravessar o Vale da Perdição, localizado exatamente no meio do mundo e que possui a má fama de fazer os trausentes perderem alguma coisa ao passar por ele. Doravante seguia com toda a confiança do mundo, mas o Vale acaba cobrando sua incrível sorte como pagamento pela travessia. Por causa disso, a partir desse dia, Doravante vive com uma tempestade em sua cabeça, sem mencionar um azar brutal. Outra consequência disso é que, ao atravessar a única ponte que ligava Desatino do Norte ao Vale da Perdição acaba derrubada pela força da tempestade, logo depois que nosso ex-sortudo a atravessa.

Essas aparentes coincidências formam praticamente toda a teia da trama deste livro. Se você é do tipo que acredita que o próprio homem faz seu destino, passe longe dele. Não que os acontecimentos da trama sejam forçados, mas é notável como o destino é parte presente na história e brinca com as vidas dos personagens, ora separando-os, ora unindo-os novamente. Apesar de aparentar um tom novelístico, a autora cria excelentes reviravoltas, unidas a um desenvolvimento grandioso, tornando o livro praticamente imprevisível. Some a isso protagonistas muito bem desenvolvidos, várias subtramas que correm juntas à trama principal e uma narrativa não-cronológica, que revela seus mistérios na hora certa, tornando uma segunda leitura quase uma obrigação.

Não leve em conta sua temática propalada como juvenil. O livro é muito maduro no tema que aborda: o destino que liga as pessoas que realmente se amam. As pinturas em aquarela do artista Lollo só ajudam a melhor compreender, já que o mesmo desenha vários mapas deixando claro sobre como a trama está organizada no momento. Uma leitura incrível, de qualquer forma. Vez ou outra, pego-o na minha estante para reler sem parar.

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